segunda-feira, 5 de julho de 2010

Mulheres no comando não evitariam crises e catástrofes

Depois que a França e a Inglaterra foram eliminadas da Copa do Mundo, recebi um e-mail de uma consultoria administrativa. O que estava dando errado, dizia a mensagem, é que os técnicos estavam se comportando apenas como homens. Se agissem mais como mulheres, sendo consensuais e atenciosos, eles poderiam ter convencido seus jogadores a chutar a bola para o fundo da rede com mais frequência.

 
Os contratempos no futebol são parte de uma série de catástrofes cujo culpado é o excesso de virilidade. Quando o Lehman Brothers quebrou, muita gente disse que se ele fosse o Lehman Sisters, as coisas poderiam ter sido diferentes. A mesma observação está sendo feita agora em relação à BP: se as mulheres estivessem no comando, a segurança poderia ter sido uma prioridade maior e o planeta estaria sendo mais bem cuidado. Grande parte disso é tolice, especialmente no futebol e nos bancos. Na BP, o toque feminino também poderia não ter salvado o dia, mas, no mínimo, assegurado que ele não terminaria de forma tão desastrosa.

 
O futebol não é a minha praia. Comemorei três vezes enquanto assistia a Inglaterra fazer três gols sucessivos, sem perceber que os dois últimos eram replays mostrados de ângulos diferentes e confusos.

Mesmo assim, pelo menos sei que os comentaristas não sabem o que falam. Alguns diziam que a Inglaterra precisava jogar com mais paixão. Outros, com menos. Ninguém tinha a menor ideia de como a estranha alquimia do futebol realmente funciona. Mas uma coisa está clara. Se o futebol se tornasse mais compassivo e participativo, não teria graça assistir e todos os clubes iriam à falência. Além do mais, os técnicos já estão mostrando bastante seus lados femininos ? pelo menos no que diz respeito aos penteados.

 
O castanho uniforme de Fabio Capello e as juba negras e lustrosas dos técnicos da Alemanha, Joachim Löw, e da Argentina, Diego Maradona, sugerem que todos os três são escravos do Grecin 2000. Se eu fosse a cabeleireira deles, sugeriria uma masculinidade mais grisalha e honesta.

 
Já a tese de que o mundo seria melhor se os bancos estivesse nas mãos das mulheres não faz sentido para mim . É verdade que muitas mulheres são avessas aos riscos e olham com desconfiança para os derivativos, mas essas são mulheres que se estivessem trabalhando em um banco estariam mortas. Somente no caso da BP o argumento a favor delas tem algum mérito: Tessa Hayward não teria se saído melhor que Tony ao tentar conter o vazamento de petróleo no Golfo do México, mas ela definitivamente não teria dito que quer a sua vida de volta.

 
Há apenas uma diferença clara entre os homens e as mulheres no comando: elas são menos confiantes e um pouco mais obcecadas com a aprovação, o que significa que há uma probabilidade menor de trocarem os pés pelas mãos.

 
Quando o assunto é gafe, as mulheres simplesmente não são páreo. É certo que a quantidade de informações sobre isso é um tanto limitada, mas a qualidade é imbatível. Tome a própria família real britânica e compare o "gafômetro" da Rainha com o do Príncipe Philip. A leitura dela é quase zero. A dele chega perto do infinito. Pense em Margaret Thatcher. Ela disse coisas controvertidas ao longo de sua vida, mas não foram exatamente gafes. Angela Merkel também não comete muitos erros estúpidos, ao contrário de Silvio Berlusconi, Nicolas Sarkozy ou Gordon Brown. O presidente americano Barack Obama, que defenestrou o general Stanley McChrystal por suas recentes declarações, também já cometeu suas gafes.

 
Quando as mulheres cometem um deslize, ele não é sempre fatal. Carly Fiorina, uma empresária que virou esperança política, estava com o microfone aberto antes de um entrevista e foi ouvida dizendo sobre seu rival democrata: "Credo, que cabelo é aquele? É antiquado demais!". Não foi seu melhor momento, embora acusar alguém de ter um penteado fora de moda é algo menos grave do que, digamos, acusar alguém de ser invejoso.

 
Parte do motivo pelo qual as mulheres estão relativamente isentas das gafes é porque as escorregadas acontece em momentos de descuido. A probabilidade de elas serem pegas aumenta quando estão com alguém do mesmo sexo - mulheres poderosas, porém, quase sempre estão cercadas por homens. Isso também ocorre porque as mulheres não saem por aí fazendo barulho e dizendo a primeira coisa que vem à cabeça. Isso pode ser uma característica ruim quando se tem um cargo muito importante mas, uma vez que as gafes são agora a principal maneira de se encerrar uma carreira de muita visibilidade, passou a ser algo muito útil para a sobrevivência.

 
Lucy Kellaway

 
Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira

Fonte: Site Contábil

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